quando eu acordava mal-humorada,
papai mandava deitar na cama de novo
e levantar pelo outro lado.
a irritação logo sumia
e eu dizia que minha cama
era uma cama mágica.
um dia, papai me viu deitando e levantando
várias vezes seguidas,
de mil maneiras diferentes.
perguntou se eu estava treinando para ser ginasta.
respondi que não, que na verdade estava triste,
e queria que a tristeza fosse embora.
ficamos os dois, uma tarde inteira,
a dar cambalhotas.
*
vovô pensa que o papai vai
trazer frango assado pro jantar
fica repetindo o tempo todo
“as coxas são minhas”
digo pela milésima vez
que papai morreu há anos
mas vovô não dá a mínima
desconfia porque sou estranha
em meu vegetarianismo.
*
os poetas que se prendem no passado
são sempre mais vulneráveis
custam a entender que a memória
cria tapas
que o pai não deu.
Mariana Godoy, atriz e pesquisadora da educação, nasceu em outubro de 1996. Publicou em setembro de 2019 o livro “O afogamento de Virginia Woolf” pela Editora Patuá. Possui publicações em mídias digitais e impressas, tais como: Escamandro, Arribação, Jornal Relevo, Revista Contempo, entre outras.